sexta-feira, 30 de maio de 2008

A Arte de Cativar e Ser Cativado...

- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...

- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Ainda ninguém me cativou...

- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.

Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:

- «Cativar» quer dizer o quê?´

- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer criar laços...

- «Criar laços»?

- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê; por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti...


- Tenho uma vida terrivelmente monótona - disse ela. - Caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outro passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e vai fazer com que me lembre de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo...

A raposa calou-se e ficou a olhar para o príncipezinho durante muito tempo.

- Por favor... cativa-me! - acabou finalmente por pedir.

- Eu bem gostava - respondeu o principezinho -, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e muitas coisas para compreender.

- Só compreendemos o que cativamos - disse a raposa. - Os homens deixaram de ter tempo para compreender o que quer que seja. Compram as coisas já prontas nas lojas. Contudo, não há nenhuma loja onde possa comprar-se amizade e, portanto, os homens deixaram de ser amigos. Se queres um amigo, cativa-me...

- E tenho de fazer o quê? - perguntou o principezinho.

- Tens de ter muita paciência - respondeu a raposa. - Primeiro, sentas-te longe de mim... assim... na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. As palavras são uma fonte de mal-entendidos. Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto...

O Principezinho. cit. Hayden, Torey. A criança que não queria falar. Editorial Presença. 2007

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Quando o fim se aproxima

"You can live with dignity. You can't die with it!" (House M. D., Episode 1 Season 1)

O tema da morte sempre foi visto como um tabu. Ninguém fala sobre isso. Calamo-nos, na esperança de que o nosso dia nunca chegue, nem o dia dos nossos. Todos temos medo desse dia, medo de desaparecer, medo de perder as pessoas que nos são próximas. Todos pensamos que teremos tempo para fazer o que queremos, para concretizar os nossos sonhos e objectivos, para podermos "morrer em paz". Mas ninguém sabe o que o dia de amanhã nos reserva…

No 1º episódio da famosa série televisiva Dr. House, uma rapariga na casa dos 30 anos, farta de tantos exames médicos que não lhe dizem o que ela tem, decide que não vale a pena continuar a lutar e pretende morrer – acabar com todos os tratamentos e deixar a Natureza fazer a sua função. Pretende "morrer com dignidade"... Mas o Dr. House não se dá por vencido e não a deixa desistir! Ele vê que esta rapariga ainda tem muito para viver. Não está na hora do seu final! Assim, convence-a de que deve fazer tudo para sobreviver. Quando ela diz que quer morrer com a sua dignidade, este médico convence-a do contrário, com o argumento de que dignidade não é algo que se leve para a morte – faz parte da vida, e por isso ela deve lutar para mantê-la, nesta vida.

Já nas unidades de cuidados paliativos, que estão a aparecer cada vez em maior quantidade, o objectivo é ajudar as pessoas às quais a medicina já não tem mais nada a oferecer, a atravessar os seus últimos momentos, – mesmo tendo o corpo degradado ou as diversas capacidades debilitadas, dores em todo o lado – da forma mais pacífica e menos perturbada que for possível. Marie de Hennezel é uma psicóloga e escritora que escreveu sobre estes cuidados do final da vida, tão importantes e tão pouco lembrados. Nas suas obras, ela fala de várias pessoas que acompanhou nos últimos tempos, da forma como a inquietação que traziam dentro de si quando entravam nas instalações, se ia transmutando na paz interior com que deixavam este mundo...